Ouvidor da polícia pede investigação sobre vazamento de fotos de mortos pela PM em Campinas: ‘Indícios de transgressão’

Fotos tiradas na noite da operação policial em Campinas estão viralizando nas redes sociais. Ouvidor acredita que em duas semanas apuração deve ser concluída.

O ouvidor das polícias Civil e Militar do estado de São Paulo, Benedito Domingo Mariano, disse ao G1 que pediu à Corregedoria da PM, nesta sexta-feira (2), uma investigação sobre o vazamento de fotos dos suspeitos mortos em confronto com a Polícia Militar, em Campinas (SP). As imagens estão circulando em redes sociais.

“Há indício de transgressão disciplinar por ter vazado foto de vítimas em ocorrência com morte. […] Não é autorizado nenhum policial a tirar fotos e vincular fotos de ocorrência na rede social. […] Em uma ou duas semanas já se tem condições de saber se foram feitas por policiais. Será apurada de imediato a partir de hoje”, afirma Mariano.

Sete homens foram assassinados na noite de quarta (28) durante a operação, que contou com 40 policiais militares e 10 viaturas, e apreendeu 12 armas, entre elas metralhadoras, um fuzil e mais de 150 dinamites. Não houve policiais feridos.

“Eu vou me comunicar com o corregedor hoje e, com certeza na apuração global da ocorrência, o indício de vazamento de fotos por parte de policiais será objeto também de investigação da corregedoria e acompanhamento nosso”, completa o ouvidor em entrevista exclusiva aoG1.

A polícia apura o envolvimento dos suspeitos em uma quadrilha de ataques a caixas eletrônicos, que praticaria um crime em Joanópolis (SP) na mesma noite, segundo informações de uma denúncia anônima. Ao menos um integrante segue foragido. A Ouvidoria da Polícia também cobra avaliação criteriosa das corregedorias no caso.

Entre os mortos, cinco tiveram a identidade divulgada no dia seguinte à ação da PM e o sexto foi confirmado nesta sexta pela Polícia Civil. É Leandro Antunes, irmão de um dos suspeitos. Os corpos foram sepultados nesta sexta. A sétima vítima também teria sido identificada, mas a polícia não confirma a informação.

Operação da Polícia Militar contra quadrilha terminou com sete suspeitos mortos em Campinas (Foto: Reprodução/EPTV)Operação da Polícia Militar contra quadrilha terminou com sete suspeitos mortos em Campinas (Foto: Reprodução/EPTV)

Operação da Polícia Militar contra quadrilha terminou com sete suspeitos mortos em Campinas (Foto: Reprodução/EPTV)

‘Série de recomendações’

O comandante da operação da PM, tenente-coronel Marci Elber, disse ao G1 que, antes da ação, deu orientações aos policiais sobre as imagens, e que somente o pessoal da inteligência da PM tinha autorização para fazer fotos, usadas na identificação dos suspeitos.

“Antes da operação nós fizemos uma série de recomendações, e uma delas foi justamente não fotografar e não filmar para evitar esse tipo de problema”.

“Estive lá presente e não vi policial, a não ser o que fotografou para a inteligência, fazendo outras fotografias. […] [O policial da inteligência] cumpriu de acordo com a nossa orientação. Não temos indícios de que ele tenha feito outro encaminhamento”, ressalta.

Quem teve acesso aos corpos

O tenente-coronel ressalta que policiais civis, peritos do IML e da Setec – autarquia da Prefeitura responsável pela fiscalização e administraçãode áreas públicas – também estiveram no local, e que a investigação precisa inclui-los.

“Esse pessoal [eu] não tive condições de fazer controle. Abre um leque pra ser verificado da onde surgiu. Do meu pessoal nós procuramos ter controle”.

“Se houver uma apuração, não me preocupa se for pessoal meu, não tenho o menor problema de puni-los exemplarmente. Não compactuamos com esse tipo de coisa. Mas, há também essas outras vertentes que devem ser verificadas”, defende.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) ainda não se posicionou sobre o caso.

G1 fez contato com a Setec, que informou que a sua equipe é a última a chegar no local, pois só é chamada para fazer a remoção dos corpos. No momento da chegada da equipe, a cena do crime está preservada tanto pela Polícia Militar quanto pela Polícia Civil para o trabalho da perícia. Até o momento, a Setec não foi notificada. Caso isso ocorra, será aberto um processo de sindicância para apurar os fatos.

Mapa mostra a localização onde sete suspeitos foram mortos em confronto com a Polícia Militar, em Campinas (SP) (Foto: Arte/G1)

Mapa mostra a localização onde sete suspeitos foram mortos em confronto com a Polícia Militar, em Campinas (SP) (Foto: Arte/G1)

Foto regulamentada

O ouvidor explica que as fotos de ocorrências só podem ser feitas para efeito de procedimentos internos pela polícia técnica”.

“Políca técnica tira as fotos que quiser para subsidiar procedimentos apuratórios. Policias que participam de ocorrências, sobretudo com resultado morte, não tâm autorização nenhuma para tirar as fotos e divulgar em rede social”, completa Mariano.

Transgressão

Segundo Mariano, quando esse tipo de situação acontece pode ser configurado como transgressão disciplinar, no caso de policiais militares, e infração disciplinar, se forem policiais civis.

“As transgressões disciplinares, pelo regulamento, podem ser leve, média ou grave”, explica o ouvidor estadual.

Relatório

Caso seja constatada a transgressão/infração, este exemplo será citado no primeiro relatório da Ouvidoria do ano, que deve ser divulgado até meados de maio.

“A cada relatório vamos fazer recomendações ao governo sobre as atividades das polícias. Vou lançar relatórios periódicos na ouvidoria. Além de trazer os principais casos e estatísticas gerais, terá uma parte bastante importante de recomendações ao governo”.

Armas, coletes e munições apreendidas pela Polícia Militar na operação da última quarta-feira (28) em Campinas (Foto: Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Baep)/Divulgação)Armas, coletes e munições apreendidas pela Polícia Militar na operação da última quarta-feira (28) em Campinas (Foto: Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Baep)/Divulgação)

Armas, coletes e munições apreendidas pela Polícia Militar na operação da última quarta-feira (28) em Campinas (Foto: Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Baep)/Divulgação)

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