Bairro boêmio do RJ tem venda de droga ao ar livre; policial vê tolerância

Passava das 23h de uma noite de sexta-feira desde mês quando a reportagem do UOL flagrou a venda de entorpecentes num dos bairros boêmios mais procurados por moradores e turistas do Rio de Janeiro, a Lapa, na região central. A ação aconteceu naturalmente, sem qualquer alarde: dinheiro na mão do comprador, papelote de cocaína na do vendedor, um aperto de mãos para a troca. 
O flagrante ocorreu em uma área de bastante burburinho e concentração de visitantes e moradores: a praça João Pessoa, no cruzamento da avenida Mem de Sá com a Gomes Freire, a 500 metros da 5ª Delegacia de Polícia e a uma curta distância de um carro da Polícia Militar estacionado do outro lado da rua. A utilização da droga pelos usuários também foi feita a céu aberto, novamente de forma discreta, aproveitando-se do vai-e-vem de pessoas para evitar chamar a atenção dos policiais.
Contabilizando diversos plantões na 5ª DP, o inspetor de polícia Daniel Marques Gonçalves, 26, tem uma opinião clara sobre a situação de venda de drogas no bairro. “A Lapa é uma zona de tolerância. Existem várias em todos os países do mundo. O Estado sabe que nesses locais circulam muitas coisas ilegais, mas não age de forma rotineira, a não ser que interesses de agentes políticos sejam contrariados”, afirmou. “São áreas de vista grossa.” 
Ele cita ainda a praça São Salvador, em Laranjeiras, na zona sul, e a Vila Mimosa, no Estácio, zona norte, como outros exemplos de “zonas de tolerância” no Rio. Para Gonçalves, a polícia trabalha de acordo com o interesse do Estado, e cabe à população julgar se esse interesse é o mesmo dela. “Se a população decidir que quer livrar a Lapa das drogas, vai ter que aceitar que sua liberdade seja limitada. Será que é isso que ela quer? Será que as pessoas estão dispostas a passar por revistas rotineiras em seus momentos de diversão?”, questiona. 
Na tentativa de baixar os número de violência e venda de drogas na Lapa, foi lançada em 1º de janeiro deste ano a Operação Lapa Presente. Do lançamento até a madrugada do último dia 19, 1.019 pessoas foram detidas por porte de entorpecentes, sendo 982 por posse para consumo e 37 por tráfico de drogas. Foram aprendidos também aproximadamente 6 kg de drogas (maconha, cocaína, crack e ecstasy). Os dados são da Secretaria de Estado de Governo do Rio.
É possível perceber um aumento considerável na presença de policiais nas ruas da Lapa do ano passado pra cá. De acordo com a Secretaria de Governo, são 81 policiais militares e 59 agentes civis patrulhando a região com 24 bicicletas e 11 viaturas. “Percebo que as coisas estão mais organizadas em termos de segurança”, opina o bancário Elídio Filho, que trabalha no centro e frequenta a Lapa em momentos de lazer. 
“A Lapa estava com um índice de violência muito alto, e a sensação de insegurança chegava a ultrapassar a insegurança real. Então entupiram a Lapa de PMs que trouxeram a sensação de segurança de volta. Mas é uma falsa sensação”, disse o policial Daniel Marques Gonçalves. “Os crimes continuam ocorrendo, mas a mancha policial acaba se deslocando para outros locais.” 

Dados oficiais

Sobre o flagrante de venda de drogas feito pela reportagem do UOL, a Secretaria de Governo disse, em nota, que “os agentes da Operação Lapa Presente, bem como os policiais militares que não fazem parte da ação em si e que atuam no policiamento ostensivo na região da Lapa e adjacências, são orientados a coibir tais práticas”.
A nota ressalta ainda que “dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) mostram que houve aumento considerável nos registros de apreensões de drogas na região, desde o início da OLP”. 
De acordo com os dados disponibilizados no site do ISP, no trimestre que compreende os meses de maio, junho e julho deste ano, foram 290 registros de apreensão de drogas notificados na 5ª DP (que cobre parte do Centro, Lapa e a ilha de Paquetá). O número é seis vezes maior que o mesmo período do ano passado (45 registros) e 115% maior que todos os meses de 2013 (252).
Comparando-se com 2012, as 290 apreensões dos três meses citados deste ano são oito vezes superiores às 36 de maio, junho e julho no ano retrasado.
Apesar dos índices expressivos, o inspetor Daniel Marques Gonçalves diz existir ainda uma grande quantidade de drogas circulando pelas ruas do bairro, seja nas mãos de usuários ou de “esticas” –muitas vezes trabalhadores de dia e vendedores de pequenas quantidades de entorpecentes à noite.
UOL

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