Crônicas do ontem e do hoje

Ainda está marcado em minha memória, e arrisco-me até a dizer que os companheiros – que iguais a este Cabo viveram aqueles momentos tenebrosos – também lembram da época em que o Estado atravessou a sua pior crise, a qual culminou com a queda do Governador Divaldo Suruagy; oprimido e pressionado em seu próprio palácio, ante a pressão popular.
Lembro-me dos dez meses em que ser soldado nesta corporação era das missões mais miseráveis. Lembro-me de companheiros que com a “cabeça fraca” pela “barriga vazia” chegaram até a cometer suicídio.
Lembro-me da figura do Coronel João Evaristo, que na época era o comandante geral da corporação, nos dispensando do serviço diário para que pudéssemos “correr atrás” do sustento de nossa família, buscando os “bicos” e as virações das mais variadas formas como feirantes, seguranças particulares, vendedores
Nessa época, um dos líderes da Revolta da Polícia Militar de Alagoas era o neófito Capitão Luciano Silva, sindicalista e – nas nossas fileiras – um dos mais revoltados contra o sistema opressor castrense. O sujeito chegou até a furar pneus de viaturas de nossa briosa, impedindo que as mesmas pudessem ir às ruas. Ele mesmo, companheiros: Luciano Malvadeza, o bandido (lamento ter de chamar um colega e farda desta maneira, mas quem já foi preso por cometer crime, segundo as minhas normas, é bandido) que hoje comanda a nossa instituição era um dos líderes da revolta.
Naquele dia, mais especificamente em17 de julho de 97, estávamos todos em frente à Praça da Catedral em passeata que por pouco não se transformou em um derramamento de sangue e um confronto com as tropas do Exército, que cercavam a Assembleia Legislativa. A grade chegou a ser forçada e derrubada, tendo entre os personagens dessa cena o falecido “Cabo Coisa” (morto em 2006 na Grota da Alegria, pelo bandido conhecido como “Sandrinho”, que teve seu fim meses depois pelas mãos da Polícia Civil), cuja imagem rodou o mundo e tornou-se o símbolo daquela ocasião.
Foram momentos difíceis, mas estávamos lá unidos, oficiais e praças, todos famintos. Isso era um motim. Motim ao qual um dos líderes era Luciano Silva.
Lembro-me também que a situação só não era pior porque o próprio Coronel Evaristo negociava diretamente com o governo o pagamento de nossos salários – que não vinha em quantidade suficiente para suprir a dívida com todos os militares –, de forma esporádica e pagos pelos furriéis em dinheiro, no Estádio Rei Pelé. Quantas lágrimas derramei certo dia, quando chegou na minha vez de receber o pagamento e o dinheiro já havia acabado.
Anos depois outras revoltas se sucederam: 1998, 2001 (que culminou com a invasão do Quartel Geral), 2006, 2009 e 2011 (que por pouco não invadiu o Quartel Geral, novamente, e a Secretaria de Defesa Social, mas que causou danos e a quebra da grade da ALE, assim como a invasão da SEFAZ). Somos uma classe de coragem e de valor – e merecemos respeito em nossa atividade, bem como merecemos sermos valorizados em nossos pleitos – o que o Estado, na figura das atuais mazelas, não está por nós demonstrando.
O desrespeito e a confiança de que ficaremos quietinhos e de que nada faremos mesmo com as ameaças das associações e com as revoltas eclodindo em todos os cantos do país é tamanha que o palhaço secretário Tiririca Dário, o César (que na época destes acontecimentos era desertor da PMAL – Alô Ministério Público, vamos apurar?), manifesta-se de forma absurda e até inflamando ânimos, debochando da categoria que nunca foi dele, pois nunca trabalhou efetivamente pela PMAL, haja vista que sua vida foi ao lado de políticos, a “embalar escrotais”, em busca de alguma benesse, e conseguiu: saiu daqui 2º Tenente e voltou Major.
Do outro lado da corda, com pouco mais 21 anos de caserna, este cabo que escreve teve a sua promoção negada, pois – como o Dr. Júlio me explicou – apesar de ter “ganho” no mérito, como a Liminar em Mandado de Segurança não foi concedida, a aplicação do mérito fica condicionada à sentença transitada em julgado, e o Estado recorreu!
E, falando em “corda”…
Estava eu, neste sábado, cumprindo mais uma escala extra não remunerada quando olha só quem eu vejo todo serelepe “desgoiabando-se” no “pinto”:
Pois é, meus companheiros briosianos, fica então a lição que cada um sai “na frente daquilo que gosta”.
Sinceramente: a Polícia Militar de Alagoas e o próprio Estado não merecem estes homens quenão demonstram o mínimo respeito pela sua própria história.
 

Comente esta matéria

Comente esta matéria

Deixe seu comentário