Em áudio, dupla avisou amigo sobre pichação em prédio antes de morrer

Mensagens gravadas em celular e mandadas para um amigo mostram que os dois homens mortos a tiros dentro de um apartamento na Mooca, Zona Leste de São Paulo, na quinta-feira (31), planejaram pichar o prédio. A PM diz que os invasores sacaram armas ao serem surpreendidos e atiraram nos policiais em uma tentativa de assalto. As famílias de Alex Dalla Vecchia Costa, de 32 anos, e Ailton dos Santos, de 31 anos, negam essa versão da polícia. Eles foram enterrados neste sábado (2).
Uma foto selfie feita dentro do elevador mostra a dupla subindo para a cobertura do prédio. Minutos antes, eles enganaram o porteiro se passando por moradores e invadiram o edifício na Avenida Paes de Barros. O zelador do prédio surpreendeu os dois e chamou a polícia. A versão da PM é de que Alex e o amigo estavam armados e que morreram em uma troca de tiros.
Em uma mensagem de voz enviada para um amigo por celular, Alex, conhecido pichador da região do ABC, faz um convite antes de entrar no prédio. “Tá ligado aquela quebrada lá que nós fez [SIC] um prédio eu e você lá na Mooca? Atravessa a Radial e já tá na Paes de Barros. Vamo fazê [SIC] aquele grandão lá de pastilha, moleque! Aquele bem grandão, tá [SIC] ligado? Vamo fazê [SIC] esse aí”, mostra a gravação.
“Aí eu tive um imprevisto, não deu pra ir. E tinha falado, comentado até de uns que a gente já tinha pichado lá e já tinha até apagado: ‘Véio, vamo [SIC] dá outro repique lá, na Paes de Barros’”, afirmou o amigo de Alex, Adriano da Silva Oliveira, que recebeu mensagem no celular.
Versões diferentes
A PM disse que Alex e o amigo estavam armados e que morreram na noite de quinta-feira em troca de tiros. De acordo com a corporação, a dupla tentava roubar um apartamento. Parentes e amigos, no entanto, contestam e dizem que a dupla entrou para pichar. A Corregedoria da corporação informou que investiga as circunstâncias das mortes.
No velório neste sábado, a mulher de Aílton estava revoltada. “Foi a polícia que matou ele. Só isso que posso falar. E eu quero Justiça”, disse Eliete dos Santos. A ex-mulher de Alex não acredita na versão da polícia. “Ele era trabalhador. Ele era um cara bom”, afirmou Érica Ferreira.
Há mais de uma década, Alex invadia prédios para tentar chegar na cobertura e deixar a marca dele nas fachadas. Ele tinha passagens na polícia por pichação, que é considerado vandalismo e crime ambiental. A dupla conseguiu entrar dizendo ao porteiro que morava no local. Segundo as testemunhas, pegaram o elevador e foram até a cobertura onde vive o zelador.
Segundo a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP-SP), o zelador percebeu uma movimentação estranha, saiu do apartamento e encontrou os dois homens no corredor, que disseram estar no local para fazer a manutenção do elevador. O zelador fingiu que acreditou na história e foi ligar para a polícia.
Os policiais militares chegaram e encontraram a dupla no apartamento do zelador. Ainda, segundo a polícia, um deles estava na cozinha e, ao ver os policiais, teria atirado. Houve revide e o homem  morreu. O outro que estava no quarto também atirou. Ele foi baleado e também morreu na troca de tiros.
A SSP afirmou que um dos PMs levou um tiro no braço. Para os amigos e parentes, no entanto, a história é outra. Uma prima de Alex Dalla Vecchia Costa publicou na página de uma rede social: “Meu primo nunca teve uma arma, nunca matou nem feriu ninguém, todo mundo sabe e é evidente que o que ele fazia era pichar.”
O próprio Alex publicava as fotos de locais pichados, como um troféu. No meio dos pichadores, ele era considerado uma lenda. O nome mais conhecido dos Jets, o grupo que nasceu na região de Santo André, no ABC, no fim dos anos 1990. A marca dos Jets é fazer escaladas ou invadir prédios para deixar a sua marca nas alturas. Quanto mais alto o prédio, maior o desafio.
Investigação
A Polícia Civil investiga o caso e disse que os PMs apresentaram uma pistola 380 e um revolver calibre 38, que estariam com os dois homens. A perícia recolheu no apartamento do zelador cápsulas de balas desses dois calibres.
O setor de investigação informou ainda que, além da hipótese de tentativa de assalto, vai também apurar a possibilidade de os dois terem invadido o prédio para fazer pichações. A polícia diz que os dois já tinham passagem por dano ao patrimônio e pichação. Também disse que não encontrou com eles nenhum objeto usado para pichar, como sprays.
De acordo com o Departamento de Homicídios, Alex Costa foi condenado quatro vezes por furto. Ele ficou 10 meses preso e depois foi colocado em liberdade. Já Ailton dos Santos foi condenado por furto, formação de quadrilha e corrupção de menores. Ele estava em liberdade provisória.
Do G1 São Paulo

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