Homem fica 45 dias preso por engano em SP após ser baleado por PM em perseguição

Jonathan de Araújo Souza dirigia uma moto vermelha quando foi ultrapassado por um suspeito de roubar uma moto branca e atingido por disparo de PMs. Conselho indica falhas na prisão e considera jovem inocente.

O vendedor Jonathan de Araújo Souza, 18 anos, ficou 45 dias preso por engano no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarulhos, na Grande São Paulo, depois de ser baleado por policiais militares em uma perseguição e considerado suspeito do roubo de uma motocicleta. O caso ocorreu em 9 de julho, na Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo. Nesta quarta-feira (23), o jovem foi solto, após a Justiça conceder liberdade provisória (23).
No dia da prisão, Jonathan foi baleado nas costas quando os PMs perseguiam um suspeito que dirigia, em alta velocidade, uma motocicleta branca roubada. Jonathan foi ultrapassado pelo suspeito enquanto dirigia uma moto vermelha. 
Após ser baleado, Jonathan foi buscar socorro na casa de um amigo, de onde havia acabado de sair. Da casa, perto do local onde ele foi baleado, Jonathan foi levado pelo pai do amigo para um hospital. Segundo a mãe de Jonathan, Irene Araújo, o filho foi abordado pelos policias militares no caminho para o hospital como se fosse o suspeito do roubo da moto. 
Os policiais militares envolvidos no caso, Carlos Henrique Fogaça Mattos e Roberto Santos de Almeida, foram afastados das ruas e atuam em trabalhos administrativos. A principal incongruência no relato dos PMs no boletim de ocorrência é que eles perseguiam um rapaz em uma motocicleta branca e desconsideraram que Jonathan estava em uma motocicleta vermelha. 
Ariel de Castro Alves, conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), enviou um relatório para a Ouvidoria de Polícia, para a Corregedoria da Polícia Militar e à 13ª Vara Criminal da Barra Funda do Tribunal de Justiça apresentando as divergências do caso e indicando a inocência de Jonathan da acusação de roubo. O documento tem provas testemunhais, aponta divergências dos depoimentos dos policiais. O relatório serviu de base para que a liberade provisória de Jonathan fosse concedida pela Justiça.

8 dias internado sob escolta policial
“É inacreditável, é tudo muito novo, minha família é uma felicidade grande hoje. Naquele dia eu nem sabia o que sentir, porque eu não sabia porque eu estava passando por aquilo. Não sabia porque estava sendo preso e porque tinha sido baleado”, disse Jonathan nesta quinta-feira (24) em entrevista ao G1.
“Ele ficou internado por oito dias sob escolta policial, algemado na cama do Hospital Geral de Pedreira. Para ser sincera, parecia um pesadelo, um filme de terror. Criei meu filho honestamente, ele trabalha desde 14 anos de idade, foi menor aprendiz, sempre foi trabalhador”, disse a mãe.
“Tive de adaptar à rotina da cadeia. A primeira semana foi a mais difícil, pois senti muita dor, sem tratamento. Eles [presos] me apoiaram muito, eles até fumavam longe de mim para evitar qualquer infecção nos pontos. Quase fiquei em depressão. Escrevi muita carta”, disse o jovem.
Jonathan disse que as primeiras 24 horas em liberdade foram dedicadas à família. “Fiquei com minha família, tomei banho quente de novo. Eu dividia uma cela com 33 pessoas. Chorei muito e agora pretendo voltar ao trabalho de vendedor, fazer faculdade de educação física.”
Lembrança do dia da perseguição
A mãe de Jonathan ainda recorda o dia em que o filho foi perseguido. “Ele passou o domingo com a família, com os pais, os avós e os primos. Ele saiu da casa dos avós e foi para a casa de um amigo e estava com o pai desses amigos momentos antes de ser baleado. No caminho de casa foi quando passou por ele uma moto branca em alta velocidade e que depois ele foi atingido pelo tiro de um policial.”
De acordo com ela, o filho, mesmo baleado, fez uma rotatória e voltou para a casa dos amigos, que era perto do local onde havia sido atingido. “O pai do amigo dele socorre o Jonathan, no trajeto ao hospital uma viatura de polícia fecha o carro e tenta tirar ele do carro, mas o pai do amigo não permite. Os policiais então, seguem o carro até o hospital. Quando eles chegam ao hospital os policiais fazem uma foto do meu filho.”
‘Abuso policial’
Para o conselheiro do Condepe, há inícios de abusos praticados pelos policiais. “O fato de a Vara Criminal ter concedido o direito dele responder o processo em liberdade já é sinal de que existem dúvidas sobre a veracidade da acusação feita pelos policiais contra ele e que existem também indícios de que Jonathan seja inocente e tenha sido vítima de abusos praticados pelos policiais militares”, disse Ariel de Castro Alves.
Insegurança na porta de casa
“Estou com medo aqui fora, de me encontrar com eles [policiais militares]. Já passou muita viatura na frente da minha casa desde que voltei pra cá, nunca foi comum isso. Era raro passar uma viatura na minha casa e agora está passando direto. Minha família não me deixa sair de casa”, disse Jonathan, que perdeu o rim esquerdo e pedaço do intestino após ser baleado.
A mãe do rapaz contou que ficou sem ver o vilho do dia em que ele saiu do hospital até o dia em que ele saiu do CDP. “Ele saiu do 98º DP, aí no fim do dia foi transferido para o 101º DP e depois ele foi para o CDP de Guarulhos. Só fui conseguir ver meu filho de novo nesta quarta-feira. A sensação de alegria é imensa, não tem dimensão de abraçar meu filho. Ele ainda está com os pontos da cirurgia, alguns infeccionados. A alegria de ver o sorriso do meu filho não tem tamanho.”
Reencontro com os policiais
“A única coisa que eu diria aos policiais é que Deus cuide da vida de cada um. Da mesma forma que eu sei que meu filho é inocente, eles sabem que meu filho é inocente. Eles são policiais despreparados, eles não podem sair atirando no meio de todo mundo. Eles não podiam fazer a gente passar pelo que passou. Eles não poderiam fazer o mal que fizeram pra mim e para mais ninguém. Eu sou muito da paz”.
“Sinto medo ao sair na rua. Já vi muita viatura policial passando na frente de casa, tenho medo de passar por tudo isso de novo”, disse Jonathan.
Outro caso
Em 2015, dois entregadores de pizza ficaram 4 meses e 7 dias presos por engano no Centro de Detenção Provisória (CDP) da Vila Independência, na Zona Leste de São Paulo. Eles foram acusados pelo roubo de uma motocicleta em 25 de abril daquele ano. Diego Aparecido Cordeiro dos Santos e Douglas de Santana Vieira foram considerados os responsáveis pelo crime ocorrido na Zona Norte de São Paulo. Imagens de câmeras de segurança e uma multa tomada pelos ladrões com a moto roubada foram decisivas para que eles fossem inocentados.
Fonte: G1

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