Moradores denunciam sessões de espancamento e invasões de casas por PMs na Rocinha

Pelo menos 25 moradores da Rocinha procuraram a Corregedoria da PM e o Ministério Público para registrar, em depoimentos, denúncias contra policiais militares dos Batalhões de Operações Especiais (Bope) e de Choque. Há relatos de espancamentos, roubos, invasões de casas e até de moradores mantidos em cárcere privado por PMs dentro da favela. Todos os crimes aconteceram após a saída das Forças Armadas da favela, em 29 de setembro.
No entanto, após as denúncias começarem a ser levadas para o trailer da Corregedoria instalado na favela — um pedido de moradores ao secretário de Segurança, Roberto Sá —, a PM retirou o posto avançado da comunidade. O trailer só funcionou do dia 2 ao dia 6 deste mês. Sem a Corregedoria no local, os moradores passaram a procurar o MP.
Num dos depoimentos, um jovem, de 16 anos, denuncia que foi espancando por dois PMs do Batalhão de Choque na tarde do último dia 1º. Ele relata que foi abordado pelos agentes, que o chamaram de “aviãozinho do tráfico”, deram uma coronhada em sua cabeça e um chute na boca. Coberto de sangue, ele teve que ser encaminhado para a UPA, onde recebeu quatro pontos na cabeça.
— Ele tinha acabado de ganhar R$ 80 de diária. Trabalhou numa corrida no Aterro do Flamengo e estava voltando para casa. Levaram o dinheiro. Fiquei com medo e tirei ele da favela. Ele foi morar com um parente fora da Rocinha — contou a mãe do jovem.
Outro jovem, de 26 anos, contou que voltava do restaurante onde trabalha como ajudante de cozinha no último dia 10, por volta das 15h, quando viu PMs revistando sua casa. Ele afirma que se apresentou aos agentes, que disseram estar checando uma denúncia. Quando eles saíram da casa, notou que os policiais haviam levado um videogame novo, pelo qual ainda estava pagando prestações, e sua aliança de noivado.
Já um idoso, de 76 anos, afirmou à Corregedoria que teve sua casa invadida por agentes, que o obrigaram, junto com sua mulher, a permanecer trancado no local por três horas — período em que os PMs ficaram observando a movimentação da rua, de dentro do imóvel.
O caso mais recente, relatado na Promotoria da Auditoria Militar na última segunda-feira, é o de uma agressão a uma adolescente de 15 anos por agentes do Bope. Segundo sua mãe, a menina havia ido comprar açaí para suas irmãs na última sexta-feira quando foi abordada pelos agentes, que queriam revistar seu celular. Ela entregou o aparelho, mas mesmo assim, os policiais começaram a dar tapas em seu rosto e chamá-la de piranha.
— Ela foi obrigada a dizer onde morava. Os policiais vieram na nossa casa, pegaram o celular de todo mundo. Deixamos ver, quem não deve não teme. Mas eles não têm direito de bater numa menina, menor de idade. Não consegui mais dormir direito desde esse dia — lembra a mãe da adolescente.
Para Allana Poubel, promotora que ouviu alguns dos relatos, a Corregedoria deveria voltar a ter um posto avançado na Rocinha. Segundo Poubel, a presença de agentes no local cria uma proximidade com os moradores, que gera confiança e credibilidade.
— O MP está recomendando à PM, dentro de uma investigação que instauramos para apurar os abusos, que a Corregedoria retorne à Rocinha. A presença da Corregedoria lá demonstra a vontade da PM de mostrar a lisura de suas ações — diz a promotora.
Procurada, a PM afirma que o posto móvel “foi deslocado para outras demandas da corporação e voltará a ser instalado na Rocinha ainda esta semana”. No início da tarde desta quarta-feira, uma equipe do EXTRA registrou que o posto já havia retornado à comunidade. Também nesta quarta-feira, representantes da Associação de Moradores da Rocinha terão um encontro com o secretário estadual de Segurança, Roberto Sá. Eles pedirão que as denúncias de abuso sejam investigadas.
Veja a íntegra da nota da PM
“A Corregedoria da Polícia Militar continua acompanhando as ações da corporação na Rocinha. A instalação do posto avançado na comunidade foi importante para estreitar o contato dos agentes da unidade correcional com os representantes dos moradores, como também serviu de base para farta distribuição de prospectos contendo números de telefones de contato, incluindo o recém-lançado Whatsapp, para denúncias e sugestões. O posto móvel foi deslocado para outras demandas da corporação e voltará a ser instalado na comunidade da Rocinha ainda esta semana”.
Fonte: Extra

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