Não precisamos de mais marginais na PM

Um companheiro lotado na P2, certa ocasião, informou-nos a respeito de uma situação “curiosa”. Em seu relato, dizia ele, “descobrimos que um marginal que foi preso pelo BOPE, em uma operação que resultou numa das maiores apreensões de droga no Estado, passou no último concurso [da PM], e mesmo tendo sido ‘contraindicado’ pela pesquisa social, parece que ele vai entrar porque a sua família é influente, e o comando não quer ir de encontro à decisão judicial que lhe foi favorável”.
De posse dessa informação, que foi uma das primeiras que recebemos dos nossos leitores desde que começamos com as nossas atividades, e sabendo quem era a “peça rara”, aguardamos o desfecho dessa situação. O Coronel Dalmo Sena, então Comandante Geral, convocou 900 candidatos remanescentes do concurso ocorrido em 2006, dentre os quais não constava o nome do “marginal”. Este, por sua vez, impetrou uma ação judicial para ser inserido na relação dos 900 convocados. E assim, após o consentimento judicial, e após passar nas fases que deveriam ser eliminatórias (dentre elas a investigação social), e agora já na “gestão” do Coronel Luciano Silva, houve a sua incorporação.
Contudo, quando pensávamos em divulgar o que estava acontecendo, fomos surpreendidos com a notícia (de um dos membros da nossa equipe) de que a exclusão do marginal era certa. Então esperamos.
Não demorou muito, no BGO nº 054 de 22 de março de 2011, confirmamos a notícia, mas não a publicamos por um simples detalhe: “não queríamos dar ‘pompa’ ao comando, ainda mais devido ao dissabor que estávamos sentido em decorrência do IPM que foi instaurado contra este blog no começo daquele mês”. No mesmo dia em que foi excluído, o marginal impetrou Mandado de Segurança, sendo que em poucos dias logrou o êxito almejado, o que foi publicado no BGO nº 065 de 06 de abril e 2011.
No mês seguinte, um leitor enviou-nos um e-mail, o qual virou uma postagem, onde ao final destacava:
“Bem, talvez os senhores já tenham visto ou ouvido falar do que aconteceu no CFAP, onde um aluno bandido envolvido com tráfico de drogas e assaltos após saber que tinha sido expulso do Curso de Formação de Praças, rasgou a farda da Corporação perante os demais alunos e disse para os oficiais que iria voltar (ou seja, que iria ser reincluído), e voltou. Isso demonstra mais uma desmoralização a que a Briosa Polícia Militar de Alagoas está exposta – o que não pode ficar abafado.”
Neste momento, começamos a enviar para a imprensa o material inerente ao assunto revelando o que estava acontecendo, bem como “a vida pública ocupacional” do marginal (agora sem aspas). Entre o material que enviamos, o qual era composto por cópias de várias portarias inerentes à situação exposta, assim como os respectivos BGOs, damos destaque às páginas do TJ, e para alguns links, onde foi publicado o seguinte:
De março até agora [21/10/2008] já foram insaturados 192 inquéritos policiais por tráfico de drogas na Delegacia de Repressão ao Narcotráfico (DRN) e em 60% dos casos a droga comercializada era o crack. Esse número de procedimentos já é superior aos registrados em 2006 e 2007, levando-se em consideração ainda que o ano não acabou. Em 2006, foram 136 casos e em 2007, 122.
O grande número de flagrantes de tráfico de crack se deve, segundo o delegado Ronilson Medeiros, titular da DRN, ao valor cobrado pela droga na venda, bem como a facilidade para armazenamento e transporte, diferente da maconha. O crack, além de dar mais lucro ao traficante, causa uma dependência nos usuários muito maior e mais rápida que a maconha.
“O crack é a menina dos olhos dos traficantes. Como o tráfico visa o lucro, é mais interessante vender crack que maconha. Para se ter uma ideia, com um grama de crack dá para se fazer umas cinco pedrinhas, cada uma delas é vendida entre R$ 5 e R$ 10. Já no caso da maconha, uma bombinha custa R$ 2. Além disso, para levar o crack é muito mais fácil que a maconha. Tudo isso faz com que essa droga seja a preferida dos traficantes”, afirmou Medeiros.
Além dos flagrantes de tráfico de drogas, a DRN registrou, esse ano, 46 prisões de usuários de drogas. Nesses casos foram feitos Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCO) e as pessoas liberadas. O delegado explicou que o que caracteriza se a situação é tráfico ou consumo não é apenas a quantidade de droga encontrada.
“Claro que o volume achado de droga é importante para perceber se o crime é de tráfico ou não. Mas, observamos também se a droga está embalada, se a pessoa presa está com grande quantidade em dinheiro trocado, se há papel para embalagem. Tudo isso é levado em conta para podermos tipificar o crime”, detalhou Medeiros.
Classe Média
Do total de 217 prisões efetuadas desde o mês de março, a maioria aconteceu na periferia. Segundo o delegado, nos bairros mais pobres estão os “peixes pequenos”, que ele classifica como a “ponta do iceberg”. De acordo com Medeiros, muitos jovens de classe média, que moram em bairros nobres de Maceió, estão envolvidos com o tráfico de entorpecentes.
A prisão do universitário Leonardo Gamito, no mês passado, na Ponta Verde, lembrou o delegado, exemplifica a entrada de jovens da classe média no mundo do tráfico. Gamito, filho de um médico, é acusado de comandar a venda de maconha e cocaína na orla de Maceió. Quando foi preso, Gamito, que estuda Direito, estava com 40 quilos de maconha.
“A maior apreensão de crack de toda a história de Maceió aconteceu em julho, na Ponta Verde. O Leonardo Gamito foi preso também lá. O tráfico chegou a esses lugares, engana-se quem pensa que isso só acontece com os mais pobres. Temos aqui prisões todos os dias, geralmente são essas pessoas da periferia que são detidas, mas queremos também chegar a quem comanda o tráfico”, disse o delegado.
Organização familiar
O número de mulheres presas por tráfico tem aumentado muito em Maceió, conta ainda ele. O delegado afirma que muitas delas entram no ramo para auxiliar os maridos e quando eles são presos, elas assumem juntamente com os filhos o comando do tráfico na região onde os companheiros atuavam.
“São verdadeiras organizações familiares. Os homens são presos e as mulheres ficam do lado de fora comandando tudo. Muitas delas são presas tentando entrar no presídio com droga para levar para os seus companheiros. Temos muitos casos aqui, de famílias presas”, observou Medeiros.
Com Alagoas em Tempo Real // Teresa Cristina
E com um pouco de persistência, finalmente vimos a imprensa se manifestar a respeito:
ACUSADO DE TRÁFICO DE DROGAS VOLTA AO CURSO DE SOLDADO DA POLICIA MILITAR DE ALAGOAS
Leonardo Gamito havia sido preso pela própria PM com 23 kg de maconha e também pela DRN, mas a Justiça teria autorizado sua participação no curso
Por decisão judicial, Leonardo Gamito Pereira retornou ao curso de formação de praças nesta terça-feira (29), mesmo após publicação de exclusão publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) na semana passada. Ele foi preso em 2007 com 23,9 kg de maconha e em 2008 por determinação do desembargador José Fernandes de Hollanda Ferreira.
Gamito, à época, foi preso pela primeira vez em 25 de dezembro de 2007 pela Polícia Militar na Operação Estrela Radiosa, comandada pelo coronel Coutinho. Com ele a polícia encontrou a maconha que trazia de Pernambuco para Maceió. Nove meses após foi preso na Ponta Verde, considerada área nobre da capital alagoana, por agentes da Delegacia de Repressão ao Narcotráfico (DRN) que tinha como chefe o delegado Ronilson Medeiros.
Pelas informações policiais, ele era o responsável pelo abastecimento de droga e também cocaína na região nobre. Apesar de todas as acusações, a própria Justiça tinha permitido que ele respondesse em liberdade e autorizou que entrasse em caráter precário no curso de soldados.
Gamito teria recebido a informação enquanto os alunos estavam em forma. Um oficial teria pedido para que saísse de forma e lido o que foi publicado no Diário Oficial do Estado (DOE). Antes dele, no início do curso, outro aluno – identificado como Anderson Paulino da Silva – foi colocado para fora. Este era acusado de cometer vários furtos em hipermercados de Maceió e em seu histórico havia passagens pelo sistema prisional.
Um caso, nesse mesmo sentido, que teve grande repercussão dentro da briosa, foi o do ex-soldado Bruno Salustiano, acusado de comandar o tráfico de drogas na região do Jacintinho e de matar colegas de farda, um deles o soldado Valdir, da Radiopatrulha, onde ambos trabalhavam.
Salustiano foi preso pela Polícia Federal, colocado para fora da PM e agora cumpre pena em um presídio de segurança máxima em outro estado.
A Gazetaweb tentou obter informações junto ao Alto Comando sobre o assunto, qual o posicionamento da polícia. O coronel Gilmar Batinga, comandante da Polícia Militar disse que somente o comandante-geral ou o subcomandante devem se pronunciar sobre o assunto.
O major PM Oliveira, chefe da 5ª Seção (assessoria) do Comando-Geral disse que nesta quarta-feira (30) sentará com o comandante para obter informações detalhadas sobre o caso.
Fonte: Gazetaweb
Porém, nossa felicidade durou apenas poucos minutos, bem dizer menos de 10 (a contar de quando vimos a matéria online), mas foi o suficiente para que pudéssemos fazer um “screen” da informação (foto anterior), logo após o nosso contato na OAM nos ligar avisando: “saiu, foi publicado”. Mal terminarmos de fazer um comentário a respeito do assunto na página da Gazetaweb, e “misteriosamente” a Gazeta de Alagoas deletou a matéria. Acontece que os demais setores da  imprensa, sempre atentos, perceberam o ocorrido e com as devidas informações divulgaram:
Denúncia: Acusado de tráfico de drogas vira soldado PM em Alagoas e Gazetaweb deleta a notícia
Tem coisas vergonhosas que parecem só acontecer em Alagoas, por decisão da juíza da 16ª Vara Cívil da Capital, Maria Ester Fontan Cavalcante Manso, o ex-presidiário acusado de tráfico de drogas, Leonardo Gamito Ribeiro, vestirá a farda da PM e usará uma arma daqui a dois meses pelas ruas de Maceió.
Leonardo Gamito Ribeiro foi preso no dia 22 de dezembro de 2007, por policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), após uma denúncia anônima, com 20 quilos de maconha no centro de Maceió, segundo a PM, a droga encontrada com o futuro soldado era procedente de Pernambuco e seria distribuída nos bairros de Jatiúca, Ponta Verde e Pajuçara.
Leonardo que foi preso em flagrante, foi julgado, mas cumpriu pena no regime semiaberto, um ano antes de ser preso, Leonardo prestou concurso para Polícia Militar, mas foi reprovado no teste físico, segundo o Portal Gazetaweb, Leonardo Gamito Ribeiro é parente de pessoas influentes, ele recorreu a Justiça, que determinou que Leonardo pode e deve ser um Policial Militar.
Ainda segundo a matéria do Portal Gazetaweb, o clima entre os policiais não são dos melhores, após os companheiros de farda descobrirem que um acusado de tráfico de drogas, preso em flagrante, será policial em breve. Um militar que não quiz se identificar disse ao Portal Gazetaweb que o clima chega a ser constrangedor e revoltante, e ainda emenda… É uma vergonha uma coisa dessa”.
A assessoria de comunicação da PM informou que o Comando está cumprindo a decisão judicial, mas que com a descoberta de um processo (por tráfico de drogas) contra o soldado, a PM voltou a pedir a exclusão do ex-presidiário Leonardo Gamito Ribeiro, dos quadros da PM.
Mas um fato curioso chamou a atenção do blog Salve Alagoas, o Portal Gazetaweb divulgou essa matéria feita pela repórter Regina Carvalho, como manchete no Portal, e após algumas horas deletou a notícia.
Nossa equipe tentou contato com o Portal Gazetaweb por telefone, para saber os motivos que levaram o Portal a deletar a notícia, mas uma atendente identificada como Juliana, nos orientou a tentarmos o contato via e-mail, o que foi feito e aguardamos uma resposta. Será que isso tem alguma coisa a ver com os parentes influentes do soldado Leonardo Gamito Ribeiro?
A polêmica sobre “o marginal que compõe os quadros da PM” chegou com força nos setores da sociedade, assim como da justiça, que embora aparentemente divida por decorrência da “presunção de inocência” tem como pensamento predominante o seguinte posicionamento: “isso tem que ser revisto pelo Tribunal [de Justiça], essa aberração jurídica não pode continuar assim”.
Assim, em meio a esta situação, concluímos: “Não precisamos de mais marginais na PM”.

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