O sono dos “justos”


Quando criança, eu tinha um herói: o soldado que eu via chegar naqueles carros antigos, usando aqueles uniformes que para mim eram roupas especiais, carregando as suas armas, algo que na minha imaginação o colocava acima de qualquer pessoa, e com superpoderes para enfrentar qualquer bandido.
O problema foi que eu despertei o desejo de quer ser como soldado que eu aprendi a admirar na minha infância, pois o mesmo, conforme pude compreender à medida que fui crescendo, para minha decepção, era cheio de limitações e comandado por pessoas alheias ao verdadeiro sentido de “ser policial”, bem como sujeito ao cumprimento de todo tipo de ordens, muitas das vezes absurdas, as quais tinha que ser cumpridas. Ao perceber que eu não poderia ser como aquele soldado, tão sofredor nas suas atribuições e tão limitado nos seus direitos, fiquei desanimado, e criei em mim a vontade de ser oficial, o que de certa forma não deixa de ser um soldado, porém um soldado com mais poderes.
Por um tempo, por ser de família pobre, até que me deixei persuadir com a possibilidade de não passar no concurso, isso porque na minha época ser oficial da PM era algo possível apenas para as famílias tradicionais ou então para os filhos dos oficiais. Mas eu teimei, e de volta para o meu sonho, fiz por onde chegar onde cheguei.
Hoje, mesmo tendo mais autoridade que aquele soldado que aprendi a admirar na minha infância e a quem prometi a mim mesmo defender, eu me sinto mais impotente que ele. E a razão é bem simples: “eu sou comandado por pessoas alheias ao verdadeiro sentido de ‘ser policial’, bem como estou sujeito ao cumprimento de todo tipo de ordens, muitas das vezes absurdas, as quais tenho que cumprir, até mesmo para dar exempo”, e para não ser tragado pelo sistema. O que não quer dizer que eu seja covarde, pois o bom guerreiro tem que combater o bom combate, acabar a carreira e guardar a fé, ou seja, tem que ter sabedoria para saber o que, como e quando combater, justamente para conseguir chegar ao final – e tudo com a fé, que tem que ser exercida com obras, pois a fé sem obras é coisa morta.
Hoje, no mesmo dia em que um Guarda Municipal foi assinado na frente da Central de Polícia  (clique aqui), alguns bairros de Maceió foram contemplados com o reforço da “Ronda Cidadã”. Segundo o que a SEDS divulgou à imprensa, “os Moradores dos SETE bairros serão contemplados com a segunda etapa do Programa Ronda Cidadã e vão ganhar reforço na segurança”, como se isso fosse um grande feito.
E o Governador Téo, tão criticado pela “onda vermelha” da violência no Estado, fez o lançamento da segunda fase do Programa Ronda Cidadã, justamente em um dos locais mais violentos do Estado, mas que não faz parte dos bairros contemplados, os quais são: Pajuçara, Farol, Gruta de Lourdes, Jaraguá, Pitanguinha, Pinheiro e Serraria. Ou seja, os bairros contemplados são apenas bairros da elite. A proposto, quem analisar com a devida atenção esse Programa Ronda Cidadã, verá que ele só atende aos estabelecimentos das áreas comerciais dos bairros nobres, bem dizer, às classes mais abastadas. Sendo assim, e porque a área de abrangência do Ronda Cidadã compreende um patrulhamento em um raio de 2,5 quilômetros, afirmamos que o conjunto José Tenório – local de lançamento da segunda fase do Programa – ficará de fora.
Ainda em relação ao Governador do Estado, o mesmo disse:
“A segurança pública é a prioridade do nosso governo, como se vê no Plano Plurianual, no empréstimo com o Banco Mundial e no trabalho da Secretaria de Defesa Social. Eu converso todos os dias com o secretário Dário César, seja quando estou no gabinete, em outra cidade ou no exterior”.
Já o secretário da insegurança:
“Estamos trabalhando, mas é claro que teremos os críticos de plantão, aqueles que apregoam o caos, pregam a política da terra arrasada para depois aparecerem os príncipes, como salvadores da pátria. Os cães ladram, mas a caravana passa, e é a caravana do trabalho. Governador, nós dormimos o sono dos justos. Porque nós somos do bem”.
Analisando o que foi dito pelos nossos ilustres representantes, começando pelo governador:
Como podemos acreditar que “a segurança pública seja prioridade desse governo” quando o mesmo, para fazer o lançamento de um programa de segurança, retira das ruas dezenas de policiais e viaturas que poderiam estar levando mais segurança à população ao invés de estarem parados debaixo de árvores sem fazer nada, simplesmente para vê-lo discursar? Quanto ao “empréstimo com o Banco Mundial”, se ao menos tivéssemos uma equipe técnica competente designada para tal fim, não perderíamos os recursos que o governo federal nos ofertou recentemente. Vejamos nas fotos como a PM é “bem” empregada:
Quanto as palavras do secretário da insegurança:
Vou apenas perguntar uma coisa: “Cadê, onde está, o resultado POSITIVO desse seu trabalho?” O povo quer saber!
Como eu dizia, eu vi aquele monte de soldados lá no conjunto José Tenório muito mais preparados que os soldados que conheci na minha infância e “me senti mais impotente que eles”, porque vi e ouvi o quanto eles estavam ávidos para não estarem ali, mas as “forças superiores” queriam o contrário. Eu já fiz inúmeras recomendações quanto emprego do policiamento, e quanto às formas de motivar a tropa, mas isso nunca foi ouvido por essa gestão responsável pela segurança em nosso Estado. Apesar disso, e mesmo com todos os índices de violência que (com a contribuição dos nossos gestores) podem fazer de qualquer um de nós a próxima vítima, eu saio à rua, sem nenhuma preocupação e com a minha cabeça erguida, ao contrário do Secretário Dário César e do Coronel Luciano Silva, pois a minha parte eu faço, seja de uma forma ou de outra.
Ainda no que se refere às conversas do governador com o seu secretário da insegurança, vou ensinar aos amigos uma coisa que aprendi com um cabo velho: “um grama de bons atos vale mais que uma tonelada de boas teorias recheadas de palavras bonitas”.

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