Pai de jovem esquartejado após ação de PMs nega oferta de proteção na BA

Família afirma que não recebeu nenhum recado suspeito e fala sobre a dor.
Filho de 22 anos foi decapitado, carbonizado e até a tatuagem foi arrancada.

Geovanne Mascarenhas desapareceu após abordagem da PM (Foto: Imagens/TV Bahia)Geovanne Mascarenhas desapareceu após
abordagem da PM (Foto: Imagens/TV Bahia)
A família do jovem Geovane Mascarenhas de Santana, de 22 anos, que foi localizado com o corpo esquartejado após ser abordado por três PMs, não aceitou ajuda do Programa de Apoio e Proteção a Vítimas, Testemunhas e Familiares de Vítimas da Violência (Provita), que foi oferecido pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), nesta quarta-feira (20).
Jurandy de Santana, pai da vítima, afirma que já sofre pela perda do filho e não quer nem pensar na ideia de atrair algum tipo de ameaça. Até o momento, ele afirma que não recebeu nenhuma ligação ou informação suspeita. “Espero que nada mais ocorra, já perdi um filho nessa situação. O médico legista disse que não sabe nem como ele foi morto, só em 10 dias, apesar de terem sido retirados testiculos, mãos, cabeça. Para mim, já chegou a parte final”, afirmou. O pai deve retirar os restos mortais do filho do Instituto Médico Legal (IML) no domingo (24) e o enterro, no mesmo dia, ocorre na cidade de Serra Preta, interior baiano.
O superintendente de Apoio aos Direitos Humados da SJCDH, Ailton Ferreira, afirma que a alta exposição de Jurandy de Santana na imprensa, desde a denúncia até a localização do corpo, é um dos motivos para que o programa tenha sido oferecido. “Nós imaginamos que ele podia estar sofrendo alguma retaliação ou ameaça. Ele disse que não, que não recebeu ligação anônima ou recado que o colocasse em situação de insegurança. O programa gera alterações no cotidiano, como mudar local de moradia, de cidade, às vezes alterar até a identidade. Ele não pode mudar a vida agora. Deixamos com ele os nossos telefones”, afirmou. Ferreira acrescenta que, atualmente, são 65 vidas são protegidas na Bahia pelo programa federal.
Os três policiais que abordaram Geovane foram identificados e presos. Ele foram levados para o Batalhão de Choque, em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. O grupo alega que o rapaz foi abordado por ter características semelhantes às de um assaltante, mas que, após a mulher não reconhecê-lo como ladrão, ele teria sido liberado.
Laudo pericial
Geovane Mascarenhas de Santana foi decapitado, carbonizado, teve duas tatuagens removidas do corpo e os órgãos genitais retirados. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (20), em coletiva de imprensa realizada pelo Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT-BA).
Um dia antes, o DPT confirmou que exames de DNA constataram que uma mão identificada por papiloscopia como sendo de Geovane é compatível com o corpo e a cabeça que foram encaminhados para o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR). Os restos mortais foram encontrados no subúrbio de Salvador, no dia 3 de agosto.
DPT diz que tatuagens de Geovane foram removidas (Foto: Reprodução/TV Bahia)DPT diz que tatuagens de Geovane foram
removidas (Foto: Reprodução/TV Bahia)
De acordo com o DPT, o corpo do rapaz passou por uma série de exames realizados em sete coordenadorias: Tanatologia, Antropologia Forense, Anatomia Patológica, Coordenação de DNA, Coordenação de Necropapiloscopia, Toxicologia e Radiologia. Diante da constação científica, o departamento informou que não foi necessário o reconhecimento dos restos mortais pelos familiares da vítima.
Coletiva (Foto: Ruan Melo/ G1)DPT realizou coletiva para falar sobre caso de rapaz
que sumiu após abordagem da PM (Foto: Ruan
Melo/ G1)
Paulo Peixoto, perito do DPT, afirma que exames complementares irão informar qual foi a causa da morte e outros detalhes sobre o crime. Contudo, ele acrescenta que nenhum exame constatou o uso de arma de fogo.
“Não é que não dê para dizer qual é a causa da morte. Todos sabem que ele foi decapitado. Mas nós estamos levantando os exames para saber se ele foi decapitado antes ou depois da carbonização. Em todos os exames de radiologia que foram feitos no corpo, na cabeça e nas mãos, não se levantou nenhuma hipótese de projétil de arma de fogo”, relata.
Peixoto conta também que ainda não é possível confirmar que as tatuagens foram retiradas do corpo do rapaz para dificultar a identificação da polícia. “Não sei qual a intencionalidade, mas sugere-se que foi para isso”. “Os órgãos genitais também foram retirados com instrumento cortante”, acrescenta.
Diante do estado do corpo, Peixoto afirma que não era possível que a família da vítima reconhecesse os restos mortais. Na sexta-feira (15), Jurandy Silva de Santana, pai do rapaz, foi até o IML, mas não identificou o corpo como sendo do filho. “Não tem tatuagem, o rosto do meu filho é pequeno e o que me mostraram é grande”, disse na ocasião.
desaparecido;bahia (Foto: Reprodução/TV Bahia)Imagens flagraram ação violenta de PMs
(Foto: Reprodução/TV Bahia)
Defesa
Os policiais suspeitos prestaram depoimento por cerca de onze horas na sede do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Segundo o coronel Alfredo Castro, os PMs afirmam que o rapaz foi abordado por ter características semelhantes às de um assaltante que teria roubado uma mulher na região da Calçada.
Eles sustentam que levaram Geovane até a mulher, mas ela não o reconheceu como o ladrão e depois disso ele foi liberado. “Eles já foram ouvidos várias vezes na Corregedoria e duas na Polícia Civil, e sustentam a mesma versão”, destaca o coronel. A PM deve concluir a investigação em 30 dias.
Os três policiais suspeitos são: Cláudio Bonfim Borges, Jailson Gomes de Oliveira e Jesimiel da Silva Resende. Um deles é subtenente, com mais de 20 anos de atuação, e era comandante da guarnição. Os demais têm 11 e 14 anos de polícia.
A justiça decretou a prisão temporária dos três, por 30 dias, para evitar intimidação a testemunhas, familiares da vítima, e que se percam provas do crime, segundo o delegado-chefe Hélio Jorge.
Caso
Geovane Mascarenhas de Santana desapareceu após uma abordagem policial no dia 2 de agosto, na Calçada. Toda a ação foi registrada por câmeras de segurança de um prédio do local da ação. A família fez buscas por mais de 10 unidades de polícia e denunciou o caso à imprensa.
As imagens mostram o momento em que Geovane, que estava em uma motocicleta, desce do veículo após uma abordagem policial. Pelas imagens, três policiais descem de uma viatura, sendo que um deles desfere um tapa no rosto do jovem, que estava com as mãos para o alto. Logo após, um outro PM chuta as pernas do jovem, que cai ajoelhado.
Ainda conforme as imagens, o jovem é revistado e conversa com um dos PM’s, sendo que em seguida a moto dele é vistoriada. Durante a ação, algumas pessoas passam pelo local. Após a averiguação do veículo, um policial tira a moto da rua. Enquanto isso, as imagens mostram o porta-malas da viatura sendo aberto e depois fechado. O rapaz não aparece mais nas imagens. Toda a ação dura seis minutos.
Do G1 BA

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