A que ponto chegamos


Hoje depois de mais de 20 anos na PMAL, policial por vocação, estou pensando por que não gosto mais de trabalhar.
Pouco tempo atrás ficava trabalhando o dia quase todo, sempre chegava em casa depois das 18:00h, não era forçado, trabalhava por prazer.
Pensei que seria por causa do salário, que não é “REAJUSTADO” há muito tempo. Falam algo em torno de 5 anos, porém o último reajuste que recebemos foi dividido em dois ou três anos, e nesse tempo também não tivemos reajuste algum. Logo, pelas minhas contas, fazem 7 ou 8 anos que estamos com o mesmo salário. “Ótimo”, a inflação é de 0% nestes anos todos…
Enquanto isso, pensei que não deveria ter estudado e sim ter sido Deputado, me dado um aumento de 109% e ainda ter ido para a televisão e falado como o presidente e o Jeferson Morais que isto não é aumento salarial.
Não assisto mais TV, não leio jornal, nem mesmo me informo, pois só o que vejo é roubo, assassinato, escândalos, operações e processos que não dão em nada, tudo isso envolvendo deputados, prefeitos, vereadores, juízes, etc.. Apesar disso, é só consultar no site do TJAL os nomes de vários políticos e ver que o adjetivo pejorativo que nos foi dado (“vândalos”), talvez não tenha vindo de forma pejorativa e sim como os bárbaros que lançaram ataques contra o império romano que roubava e escravizava vários povos, levando-o a queda, logo somos os vândalos e quem são os ladrões? Leiam: “Brasil paga mais a deputados que os países ricos” (clique aqui).
Pensei que seria por causa da miséria que existe em nosso Estado… Na RP prendi muita gente “POBRE”, ops! errei, “MISERAVEL”, invadi muitas “CASAS”, ops! errei novamente, “BARRACO”, “MUQUIFO”, “CAFOFO”, “FAVELA”, como queiram. Não me lembro de ter prendido os bandidos que desviavam dinheiro do nosso Estado, pois nunca nos deram as características desses meliantes, desconfio que usem terno e gravata, e que todos tenham apartamentos na orla e alguns possuam fazendas pelo Estado ou espalhadas pelo Brasil, vivam prometendo melhorar a situação do povo, mas só saibam onde moram de 4 em 4 anos.
Pensei que seria pelas promoções na PMAL, as quais são feitas sem critérios morais. Por muito tempo me perguntei quais seriam as características necessárias para ser “MERECEDOR” ou então quais seriam as características necessárias para ser o “ESCOLHIDO” para ser promovido. Trabalhei muito, esqueci minha família, ia para onde me mandavam, aceitei missões que outros não queriam, me arrisquei, errei muito (só erra quem trabalha). Então descobri que só era preciso babar, ir ao Palácio ou a Assembléia e pedir ou implorar, por que não dizer “me humilhar” por algo que me era de direito; ser reconhecido e promovido na minha vez. Gostaria que se tudo isso fosse besteira, que algum coronel 91, algum tenente-coronel 94 ou algum major 99, me explicasse quais os critérios para ser escolhido.
Pensei que seria pelo modo de acabar com a vocação profissional que nossos comandantes têm para conosco, subordinados, coisa que muito me machucou no passado, hoje fiquei indiferente, aceitei por muitas vezes os ARGUMENTOS: “Mô fio, eu sô o comandante, o único líder”, “Vou te transferir”, “É do jeito que eu quero”, “Sou democrático, mas o que vale é a minha opinião”… Isso deve esconder muitos complexos, não vou continuar, lembrar me deixa com muita raiva, já estou pensando em descontar em meu filho. Viu em que transformam os subordinados, brincadeiras a parte, não quero deixar o imbecil que me tornaram aflorar.

Pensei que seriam pelas aberrações cometidas por pessoas no Estado, tais como usar a polícia para serviços particulares, reformas, construções, segurança de lojas, supermercados, casas de show ou eventos, imobiliárias, eleições. Vou explicar melhor, policiais que de uma forma ou de outra levam filhos para escolas ou acompanham esposas de oficiais ou autoridades do nosso Estado; reformas e construções feitas por praças em casas de coronéis; colocação de guarnições em frente a lojas, imobiliárias e supermercados específicos; nas eleições policiamento de candidato da oposição, enquanto isso os da situação fazem o que querem e com todo apoio da nossa força, polícia, digo porteiros ou flanelinhas na Assembléia, TJAL e Palácio, onde o Estado chega ao absurdo de pagar Sargentos e até tenentes para cuidar de estacionamentos, não especifiquei por causa do posto ou graduação e sim pelo salário pago que varia de R$ 3.500,00 a R$ 4.000,00, mais gratificações e horas extras, por policial, que servem à Briosa como porteiros, abrindo e fechando portões ou cuidando de carros, ótimo salário para flanelinhas.

Enquanto isso, nos quartéis, nós nos ferramos, hoje não sinto que tenho mais compromisso com a sociedade, ela não liga para mim, nem eu ligo para ela. Vou explicar: quando entrei, corria o dia todo atrás de bandido, com o tempo vi que quando algo dava “errado”, ter que dar um tiro, usar a força necessária, prender alguém que tivesse qualquer tipo de relacionamento com autoridades, ouvia um eco no meu subconsciente “SE ARROMBOU”, e então “processo”, “advogado”, “pagamento”, algo em torno de 15% a 20% do meu orçamento anual e mais vários constrangimentos, enquanto isso a sociedade, direitos humanos, jornais e noticiários só diziam “coitadinho do bandido”. Parece que todos agora torcem pelos bandidos e não pela polícia, devem estar criando as crianças para na brincadeira de polícia e bandido, serem os bandidos. Leiam: “Conheça a Síndrome de Burnout, uma doença que acomete policiais militares” (clique aqui), e “Estresse: diagnóstico dos policiais militares em uma cidade brasileira” (clique aqui).
Pensei que seria pelo motivo de que sempre tentei fazer tudo correto. Ensinaram que era errado nos envolvermos em política, que nos devíamos ser isentos e imparciais, porém hoje descobri que as pessoas que nos ensinaram, cobraram, adestraram, faziam exatamente o oposto, se aproximavam, babavam e serviam às autoridades para conseguirem realizar seus desejos obscuros. Enquanto isso, nunca trabalharam na PMAL, embora vestissem a mesma farda.
Pensei que o certo seria copiar pessoas honestas, justas, boas, porém o que vejo hoje são que as pessoas que mais respeito, são as que mais sofrem perseguições, são discriminadas, não são promovidas, são massacradas, são humilhadas, e o pior de tudo: adoecem, são tão oprimidas que ficam deprimidas. É muito triste ver pessoas que tinham dom, vocação, motivação hoje não acreditarem mais em nada, não saberem como melhorar o nosso trabalho, não terem oportunidades, é lógico que incompetentes não podem dar oportunidades para pessoas que sabem trabalhar, oportunidades não são dadas para pessoas boas, honestas sem envolvimento em política, pois seria a morte profissional para os incompetentes, não podem jamais aceitar que o certo é o certo, mais vale o “Rquero” que o certo.
Pensei que iria ser um policial militar, descobri que sou apenas um escravo, sem direitos trabalhistas, horas extras, adicional noturno, periculosidade e ainda por cima, por diversas vezes a minha carga horária extrapolou as 300 horas mensais.
Pensei que ninguém conseguiria mentir sobre meu salário, porém vem um governo e afirma que o salário dos policiais militares de Alagoas é o décimo do Brasil, porém escondem que nos outros Estados existem: hora extra, periculosidade, gratificações outras, bico oficial maior que o salário, que elevam os salários em muito. Apesar disso, hoje somente queríamos deixar de ser escravos.

Depois, assim que tiver algum tempo, eu termino…

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