Violência bate recorde de quase 30 anos em seis tipos de crime, aponta ISP

O colapso na segurança do Rio fez com que o estado atingisse, nos dois primeiros meses de 2018, o pior patamar da série histórica do Instituto de Segurança Pública (ISP) para pelo menos seis diferentes tipos de crime. No caso dos roubos de carga, de veículo, a pedestre e em ônibus, o índice remonta ao ano de 1991, quando começaram a ser compiladas as estatísticas. O recorde negativo também abarcou os roubos de celular, contados a partir de 2001, e os a caixas eletrônicos, cujo controle passou a ser feito dois anos depois. A análise foi feita pelo GLOBO com base em dados divulgados nesta segunda-feira, quando o ISP divulgou os índices de violência de fevereiro. Os dados alcançam apenas os 12 primeiros dias da intervenção na segurança, decretada no dia 16 daquele mês.

Foi a primeira vez, por exemplo, que as ocorrências de roubos a pedestre ultrapassaram a marca das 15 mil ocorrências, considerando somente a soma dos meses de janeiro e fevereiro. As 15.107 vítimas registradas apenas em 2018 perdem por pouco para o total de 15.624 casos computados entre 1991 e 1998 — ao longo de oito anos, portanto, ainda tomando como base apenas os primeiros bimestres. É como se, nos dois primeiros meses deste ano, uma pessoa virasse alvo de assaltantes enquanto caminhava pelas ruas do estado a cada cinco minutos aproximadamente.

O crescimento de 682,7% nos roubos a pedestre em pouco menos de três décadas permanece acentuado mesmo levando em conta a oscilação na população fluminense no período, que saltou de 12,8 milhões para aproximadamente 17 milhões de moradores, segundo o próprio ISP. A taxa de roubos a pedestre para cada cem mil habitantes, desse modo, subiu de 15,1, em janeiro e fevereiro de 1991, para 88,7 no bimestre que inaugurou 2018 — um aumento de 487,4%.

De acordo com o coronel da reserva Robson Rodrigues, mestre em Antropologia e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, os dados mostram o “colapso do sistema policial”. Ele explica que a opção por realizar operações para apreender fuzis, por exemplo, levou às perdas na capacidade investigativa, da Polícia Civil, e no patrulhamento ostensivo, da Polícia Militar.

— No Rio, perdemos um pouco do controle, sobretudo porque, quando opta por aumentar operações em busca de fuzil nas favelas, ainda mais em momento de crise de recursos, essa opção leva a perder em algum lugar. Acaba sacrificando recursos que poderiam estar no patrulhamento preventivo. É sinal do colapso do sistema policial. As duas entregas de um sistema policial, que são prevenção com patrulhamento e investigação eficaz, tudo isso se perdeu — disse ele ao GLOBO.

Ainda de acordo com Rodrigues, a decretação da intervenção federal poderia servir para reorientar o trabalho das polícias. No entanto, diz ele, fatores como falta de planejamento e desconhecimento da atividade policial por parte dos militares dificultam a retomada das funções de investigação e prevenção de crimes.

— A intervenção, que poderia preencher o vácuo para reorientação tática e estratégica (da polícia), não está fazendo por vários motivos. Primeiro, ainda não fez um plano. Segundo, não conhece o trabalho policial. Não é o militar que vai resolver isso. Primeiro, querem trazer recursos. Até chegar os recursos… Depois, têm que entender o que fazer. Se não entender, acaba mantendo as próprias disfunções — afirmou o especialista, que voltou a criticar o número de operações:

— Tem operação em demasia, o que causa muito mais pânico (na sociedade). Não se combate (a criminalidade) assim; se combate com inteligência. Diante de uma crise, (o Estado) não foi capaz de orientar as polícias para sua função originária: investigação, aumentando elucidação criminal para identificar quadrilhas desse crime de oportunidade, e patrulhamento qualificado. Precisamos de proação, e não reação.

Outros índices também cruzaram marcas significativas no período analisado: os roubos de veículo, que romperam a barreira das dez mil ocorrências; os em ônibus, batendo mais de dois mil casos; e os de celular, que, também pela primeira vez, superaram os quatro mil registros — sempre no somatório de janeiro e fevereiro. Algumas estatísticas, em especial a de roubos de rua (conjunto dos assaltos a pedestre, em ônibus e de celular), ficaram prejudicadas no princípio de 2017, já que uma paralisação na Polícia Civil causou grande subnotificação de crimes.

Até mesmo modalidades criminosas com um universo bem menor de ocorrências alcançaram seu patamar máximo no primeiro bimestre deste ano. É o caso dos roubos a caixas eletrônicos, que começaram a ser compilados pelo ISP em 2003. Com ações elaboradas, que ocorrem tanto na capital quanto no interior do estado, quadrilhas especializadas assaltaram caixas bancários em 15 ocasiões entre janeiro e fevereiro, o equivalente a um registro a cada quatro dias.

FONTE: EXTRA

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